Fenótipo Feminino do Autismo
Guia clínico interativo · neurodesenvolvimento

O autismo que passa despercebido

Por que tantas meninas e mulheres autistas chegam ao diagnóstico tarde — ou não chegam. Um guia sobre o fenótipo feminino do autismo: o que muda, o que se esconde e como reconhecê-lo.

o que se vêpasse o cursor — ou toque

Leitura voltada a quem quer entender o próprio funcionamento ou o de alguém próximo.

Ponto de partida · O viés

Por que o autismo feminino escapa ao diagnóstico

O autismo é diagnosticado em cerca de quatro meninos para cada menina. Mas esse número não significa, necessariamente, que haja quatro vezes menos meninas autistas — significa, em boa parte, que elas são menos reconhecidas.

Quando o diagnóstico depende de instrumentos e critérios construídos a partir de amostras majoritariamente masculinas, o que não se parece com o autismo "clássico" tende a ser perdido. Duas explicações coexistem — não se excluem.

O efeito protetor femininoFemale Protective EffectHipótese genética: meninas precisariam de uma carga genética ou ambiental maior que a dos meninos para expressar o mesmo grau de características autistas. Mutações de novo em mulheres autistas tendem a ser mais frequentes, maiores e mais deletérias — como se o limiar para "manifestar" o autismo fosse mais alto nelas.

Uma hipótese biológica: seria preciso um "empurrão" maior para que o autismo se manifeste em pessoas do sexo feminino. Quando ele aparece com bom funcionamento cognitivo, os sinais costumam ser mais sutis.

O viés diagnóstico

Critérios e testes pensados sobre o autismo masculino. Some-se a isso a habilidade — frequente em meninas — de mascarar as dificuldades sociais, e o resultado é diagnóstico tardio ou ausente.

Estudos que buscam casos ativamente (em vez de esperar que cheguem ao serviço) encontram uma proporção mais próxima de 3:1, não 4:1. A diferença entre os dois números é, em grande parte, o autismo feminino que não é visto.

Diagnóstico tardio

Boas habilidades, sinais sutis

  • Melhor comunicação verbal e não-verbal
  • Maior motivação social
  • Interesses menos atípicos no conteúdo
  • Costuma chegar à avaliação na escola, adolescência ou vida adulta
Diagnóstico precoce

Perfil mais evidente

  • Maior necessidade de suporte
  • Frequente atraso cognitivo associado
  • Perfil que se sobrepõe ao masculino "típico"
  • Identificado mais cedo, na primeira infância
Nota de avaliação A razão de sexo cai à medida que a deficiência intelectual aumenta: no perfil de alto suporte (QI <70), os fenótipos masculino e feminino praticamente se sobrepõem e a diferença de gênero quase desaparece. O desafio diagnóstico concentra-se no perfil de baixo suporte com cognição preservada — onde a camuflagem é mais eficaz. Considere ativamente o fenótipo feminino antes de descartar autismo em mulheres com queixa de ansiedade, depressão ou "dificuldades sociais inexplicadas".

Domínio A · DSM-5-TR

Comunicação e interação social

As dificuldades sociais continuam presentes — mas costumam ser menos visíveis. Em comparação com meninos autistas, meninas no espectro tendem a mostrar habilidades sociais mais desenvolvidas, o que paradoxalmente atrasa o reconhecimento.

Comparadas a meninas com desenvolvimento típico, elas têm, sim, prejuízo social. Mas comparadas a meninos autistas, costumam apresentar maior desejo e consciência da interação, tendência a imitar os outros, melhor linguagem e mais imaginação. Há, frequentemente, um genuíno desejo de amizade — que convive com a dificuldade de sustentá-la.

O que muda na expressão social

Conversa recíprocaMaior capacidade de manter o vai-e-vem da conversa e compartilhar interesses.
Não-verbal integradoMelhor integração entre fala, gestos e contato visual — ainda que com esforço.
Iniciar amizadesMaior motivação para formar vínculos, mesmo com dificuldade de mantê-los.
Ajuste ao contextoCapacidade de modular o comportamento em público, conforme a situação.

Há um detalhe importante sobre o tempo. Como a exigência social aumenta com a idade, muitas meninas que mascararam bem até a idade escolar passam a mostrar o prejuízo na adolescência — quando as regras sociais ficam mais complexas e implícitas. O que parecia "só timidez" começa a custar caro.

Importante Ter habilidades sociais não exclui o autismo. Muitas mulheres autistas aprenderam a parecer à vontade socialmente — e esse esforço, invisível por fora, é exaustivo por dentro.
Nota de avaliação Idade da primeira preocupação parental correlaciona-se com gravidade do prejuízo social. Meninas avaliadas na primeira infância tendem a ter prejuízo socio-comunicativo mais marcado; as de bom funcionamento social passam pela vigilância de rotina e só chegam à avaliação na idade escolar/adolescência. Testes padronizados podem não capturar a dificuldade — uma análise qualitativa das habilidades socio-relacionais é necessária. QI normal e boa linguagem contribuem para subdiagnóstico.

Domínio B · DSM-5-TR

Interesses restritos e comportamentos repetitivos

Os interesses intensos estão lá — mas seu conteúdo muda. E é justamente o conteúdo, não a intensidade, que faz a diferença passar despercebida.

Comportamentos repetitivos e interesses restritos (RRBs, na sigla em inglês) são sintoma central do autismo. O que distingue os RRBs autistas dos comuns no desenvolvimento típico não é a presença, mas a intensidade. E aqui está o ponto: meninas autistas tendem a se interessar por áreas socialmente "normativas" para a idade e o gênero.

Interesses mais frequentesMeninasMeninos
TemasCavalos, animais, popstars, moda, literatura, personagensNúmeros, letras, dinossauros, trens, computadores
NaturezaPessoas, narrativas, relaçõesObjetos, sistemas, mecanismos
Visibilidade clínicaParece "uma fã dedicada"Salta aos olhos como atípico

Uma adolescente que sabe tudo sobre um cantor — toda a discografia, durações exatas das músicas, datas de shows passados e futuros — pode parecer apenas uma fã intensa. O grau de absorção é o mesmo de um menino obcecado por horários de trem; o que muda é que o tema dela não dispara o alarme clínico.

Por que os testes não capturam

As escalas mais usadas para medir comportamentos repetitivos foram desenvolvidas sobre amostras predominantemente masculinas. Elas não incluem toda a gama de RRBs — e por isso podem subestimar o que aparece em meninas. Some-se a isso o fato de que, em idades menores, esses comportamentos são menos evidentes nelas, tornando-se mais claros depois.

Mecanismo Emerge na literatura uma correlação entre insistência na invariânciaInsistence on samenessNecessidade de que as coisas permaneçam iguais — mesma rotina, mesmos objetos, mesma ordem. Mudanças inesperadas geram angústia desproporcional. É um subtipo de RRB de "ordem superior", mais ligado ao funcionamento executivo do que estereotipias motoras., déficit de função executiva e problemas internalizantes. Quanto maior o prejuízo executivo (menos inibição comportamental, menos flexibilidade cognitiva), maior o nível de RRBs — e a relação positiva entre RRBs e depressão pode refletir uma estratégia alternativa para dificuldades de regulação emocional. RRBs de baixa ordem (estereotipias motoras) associam-se a alto suporte; os de alta ordem (insistência na invariância) podem estar mascarados em meninas com cognição preservada.

O conceito central

Camuflagem: o esforço invisível

Camuflagem é o processo pelo qual pessoas autistas mascaram seus traços — com estratégias conscientes ou inconscientes — para minimizar a visibilidade de suas dificuldades sociais. É a chave para entender o fenótipo feminino.

Camuflar é adotado por homens e mulheres autistas, mas é mais frequente e mais eficaz nas mulheres. Funciona em três etapas.

Por quê?

Motivação

O desejo de se encaixar, de atender às expectativas sociais, de evitar a rejeição dos pares. O objetivo final é ser incluída em contextos sociais e de trabalho que, com o autismo visível, seriam menos acessíveis.

Como?

Mascaramento e compensaçãoCompensationEstratégias para suprir os traços atípicos e corresponder à expectativa do outro durante a interação: aprender e ensaiar "roteiros sociais", decorar respostas, imitar expressões e gestos observados em outras pessoas, preparar tópicos de conversa de antemão.

Mascarar é ocultar o que destoa: suprimir estereotipias, forçar contato visual. Compensar é construir uma fachada funcional — ensaiar roteiros de conversa, copiar maneirismos, decorar o que "se deve" dizer. Muitas descrevem como "vestir o meu melhor normal".

A que custo?

Consequências

Há ganhos reais — e um preço alto.

Ganhos Melhora o funcionamento adaptativo: ajuda a se misturar, a construir relações, a conseguir e manter emprego. Aumenta a integração social e a independência.
Custos Diagnóstico e intervenção atrasados. E porque camuflar é mentalmente exaustivo, eleva o risco de sintomas internalizantes: depressão, ansiedade, perda de identidade, autolesão, ideação suicida.

"Vestir o meu melhor normal" tem um preço que não aparece para quem está de fora: o esgotamento de manter, o dia inteiro, uma performance de pertencimento.

Cuidado de manejo Em estudo com mulheres não-diagnosticadas com altos traços autistas, a camuflagem associou-se a maior sofrimento, suicidalidade e pior funcionamento diário — independentemente da gravidade dos traços. A camuflagem é fator de risco independente para pensamentos e comportamentos suicidas. Na prática: o esforço de mascarar pode tornar a pessoa "alto-funcionante" aos olhos do serviço e, ao mesmo tempo, mais vulnerável. Pergunte ativamente sobre o custo subjetivo da performance social, não apenas sobre o desempenho observável.

Perfil neuropsicológico

Cognição e funcionamento

Não há diferença de QI entre autistas homens e mulheres na população geral — mas há diferenças de perfil cognitivo que ajudam a explicar por que o diagnóstico feminino escapa.

Linguagem que abre — e que esconde

Entre autistas com fala fluente, o déficit narrativo é compartilhado entre os sexos. Mas meninas costumam apresentar um perfil distintivo, chamado "fenótipo mesclado"Blended phenotypePerfil linguístico descrito em meninas autistas: boa capacidade de descrever e dar detalhes, combinada ao uso frequente de expressões ligadas a estados cognitivos e emocionais, julgamentos e percepções — algo mais típico do desenvolvimento neurotípico. Essa "mistura" torna o prejuízo comunicativo menos evidente.: boa fluência ao descrever e detalhar, com uso frequente de termos sobre emoções, pensamentos e percepções. Esse perfil, provavelmente ligado à maior motivação social, torna a dificuldade comunicativa menos óbvia — e contribui para o diagnóstico tardio.

Funções executivas e memória

As funções executivasExecutive functionsConjunto de processos cognitivos que permitem planejar, organizar, regular e executar ações para alcançar metas: inibição, flexibilidade cognitiva, memória de trabalho, alternância de foco. O autismo já foi descrito como um "transtorno executivo". — planejar, inibir, alternar foco, ser flexível — costumam estar comprometidas no autismo. Mulheres autistas sem deficiência intelectual podem apresentar maior dificuldade na velocidade de inibição de resposta: demoram mais a "frear" um comportamento automático, o que pode prejudicar a interação social sobretudo em estados de alta ativação, como a ansiedade.

Na memória de trabalho, o quadro é misto: há prejuízo geral, mas com uma proficiência relativa em tarefas de span de dígitos — recordar sequências mais longas de números. Esse tipo de compensação cognitiva pode contribuir para mascarar dificuldades em avaliações padronizadas.

A teoria do "cérebro masculino extremo" — e seus limites

A teoria de Baron-Cohen conceitua o autismo como uma forma extrema de funcionamento "sistematizador" — a tendência a analisar regras de sistemas mecânicos em vez de focar emoções e pensamentos alheios. Ela contribuiu para entender o funcionamento autista, mas não explica as diferenças de gênero no espectro. É justamente o que ela não captura — o autismo que sistematiza pessoas, narrativas e relações — que define boa parte do fenótipo feminino.

Nota de avaliação Instrumentos de FE frequentemente envolvem habilidades visuoespaciais — área em que mulheres tendem a pontuar mais baixo —, o que pode penalizar artificialmente o desempenho feminino. O QI influencia fortemente a avaliação executiva. Logo, "diferenças de gênero em FE" podem refletir fatores de vulnerabilidade somados (incluindo QI), não uma diferença de gênero real. Interprete perfis executivos femininos com essa ressalva metodológica.

O que costuma vir junto

Comorbidades: o que muitas vezes aparece primeiro

Frequentemente, o autismo feminino chega ao consultório disfarçado de outra coisa. Cerca de 70% das pessoas autistas têm ao menos um transtorno mental associado; metade tem mais de um.

Em mulheres, na transição da adolescência para a vida adulta, o risco de desenvolver ansiedade e transtornos do humor é maior que nos homens. Não raro, é a ansiedade ou a depressão que motiva a primeira busca por ajuda — e o autismo de base permanece invisível por trás dela.

Transtornos internalizantes

Ansiedade e depressão são especialmente relevantes. Adolescentes autistas mulheres apresentam níveis mais altos de ansiedade que meninos autistas e que meninas neurotípicas. A regulação emocional tende a ser mais comprometida, com maior reatividade e disforia.

Há uma conexão direta com a camuflagem: o esforço de mascarar gera sofrimento, e o sofrimento alimenta os sintomas internalizantes. A depressão, além disso, costuma ser subdiagnosticada em pessoas autistas — o que deixa muitas sem o tratamento de que precisam.

TDAH e o que se sobrepõe

A coocorrência de TDAH no autismo é alta — de 25% a 65%. Desde o DSM-5, os dois diagnósticos podem coexistir. Como ambos têm predomínio masculino nas amostras clínicas (razão de 3:1 também no TDAH), as meninas tendem a ser sub-reconhecidas nas duas condições — uma dupla invisibilidade.

Uso de substâncias

Menos frequente, mas relevante: o efeito ansiolítico do álcool e da cannabis pode funcionar como facilitador social, ajudando a suprimir a ansiedade e a lidar com eventos sociais. Combinado à maior percepção do déficit social nas mulheres, isso torna o tema um campo que pede mais investigação.

Tema sensível · suicidalidade Pessoas autistas têm risco significativamente mais alto de pensamentos e comportamentos suicidas — e mulheres autistas, em particular, têm risco muito elevado em comparação à população geral. A camuflagem aparece como fator de risco independente: a maior consciência das próprias dificuldades sociais pode gerar solidão, sensação de não pertencer e necessidade crescente de mascarar. O isolamento é especialmente relevante em mulheres autistas não diagnosticadas. Este é um tópico delicado; se você ou alguém próximo está em sofrimento, procurar apoio profissional faz diferença. No Brasil, o CVV atende pelo telefone 188, 24 horas.
Cuidado de manejo Reconhecer o autismo de base pode reorganizar a formulação de quadros ansiosos/depressivos "resistentes" em mulheres. A depressão é subdiagnosticada nesta população; a apresentação pode ser atípica. Trate a suicidalidade como eixo de avaliação ativo, não reativo — sobretudo em mulheres com altos traços autistas ainda não diagnosticadas, onde camuflagem e sofrimento estão dissociados da gravidade observável dos traços.

Ao longo do tempo

O autismo feminino na vida adulta

Os traços autistas não desaparecem com a idade — mudam de forma. Algumas dificuldades se atenuam; outras persistem; e o diagnóstico tardio cobra seu preço.

Com o tempo, costuma haver melhora nas habilidades relacionais e redução de comportamentos ritualísticos e da busca sensorial. As habilidades adaptativas — diferentemente do QI, que é estável — podem melhorar com intervenção. Mas dificuldades de comunicação pragmática e de modulação do contato visual tendem a persistir.

O dado mais importante para a clínica feminina: mulheres autistas tendem a apresentar piores desfechos sociais e ocupacionais e pior qualidade de vida geral que os homens. Isso se deve, em boa parte, à dificuldade de reconhecimento dos sintomas no gênero feminino — com diagnóstico atrasado e falta de suporte adequado nos anos em que ele faria mais diferença.

O que o diagnóstico tardio significa na prática

Anos sem explicaçãoDécadas interpretando as próprias dificuldades como falha pessoal, e não como funcionamento.
Suporte ausenteSem diagnóstico, não há acesso a serviços e adaptações específicas.
Camuflagem acumuladaAnos de mascaramento, com o desgaste de saúde mental que o acompanha.
RessignificaçãoPara muitas, o diagnóstico adulto traz alívio: "de repente, as dificuldades fazem sentido".
Nota de avaliação A literatura sobre mulheres adultas autistas é escassa e enviesada para infância/adolescência. A razão de sexo em serviços para adultos varia de 2:1 a 9:1 — indicando o quanto a vida adulta concentra os diagnósticos perdidos. Em avaliação de adultas, valorize a história longitudinal de esforço de adaptação, o custo subjetivo da socialização e os interesses intensos de conteúdo "normativo" — frequentemente desvalorizados em avaliações anteriores.

Síntese prática

Sinais que costumam escapar

Nenhum sinal isolado fecha diagnóstico. Mas certos padrões, vistos em conjunto, costumam estar presentes no fenótipo feminino — e costumam ser justamente os que passam batido.

Sociabilidade com esforçoParece à vontade, mas a interação é exaustiva e exige preparo. "Recupero-me sozinha depois."
Amizades intensas e frágeisDesejo genuíno de amizade, com dificuldade de manter — relações que começam fortes e se desfazem sem que ela entenda por quê.
Interesses absorventes "aceitáveis"Fixação intensa em temas socialmente normativos (artistas, animais, ficção, um campo de estudo).
Roteiros sociais ensaiadosPreparar conversas, decorar respostas, imitar maneirismos de outras pessoas.
Necessidade de previsibilidadeAngústia desproporcional diante de mudanças de rotina, planos ou ambiente.
Sensibilidade sensorialLuzes, sons, texturas, rótulos de roupa — desconforto que ela aprendeu a esconder.
Ansiedade ou depressão "inexplicadas"Sofrimento internalizante que não responde bem ao tratamento, sem causa aparente clara.
"Sempre me senti diferente"Sensação antiga de não pertencer, de observar as regras sociais de fora.
Este guia é educativo e não substitui avaliação profissional. Reconhecer-se em alguns sinais não significa ter um diagnóstico — significa que vale a pena conversar com um profissional preparado para considerar o fenótipo feminino.
Para a entrevista Priorize a análise qualitativa sobre o escore padronizado. Pergunte pelo custo da socialização, não só pelo desempenho. Investigue a história de interesses intensos sem descartar os de conteúdo normativo. Verifique se ansiedade/depressão atuais podem estar assentadas sobre autismo não reconhecido. Lembre da ressalva de estado vs. traço: ansiedade aguda pode amplificar prejuízos de inibição e leitura social que não são, por si, o quadro de base.

Vinhetas clínicas

Dois caminhos até o diagnóstico

Adaptadas dos relatos de caso do livro-fonte, estas duas histórias ilustram os dois perfis mais frequentes — o que chega cedo e o que quase não chega. Nomes e detalhes são fictícios.

Caso 1 · Alto suporte, diagnóstico precoce

Sara, 2 anos

"Ela não parece se interessar pelos outros, não fala. Às vezes tenho a sensação de que é surda."

Aos 24 meses, Sara faz pedidos pegando o braço dos pais e levando a mão até o objeto desejado. Atingiu todos os marcos motores, mas as vocalizações quase não têm função comunicativa. Na creche, medo de pessoas desconhecidas, pouco contato visual, gestos reduzidos. Luzes a atraem de forma irresistível; sons inesperados provocam medo. Qualquer mudança de rotina — ou até um corte de cabelo de alguém familiar — desencadeia reações impulsivas.

O que esse perfil mostra Perfil de alto suporte, com sinais "clássicos" e precoces. Aqui o fenótipo feminino quase não se distingue do masculino — e justamente por isso o diagnóstico chega cedo. É o caminho menos invisível.

Caso 2 · Baixo suporte, anos de dúvida

Elisa, 10 anos

"De repente, as dificuldades da minha filha fazem sentido."

Descrita como "uma menina-prodígio, organizada e extremamente rotineira" — traços que despertavam admiração nos amigos da família. Alegre, inteligente, curiosa em excesso. Quando se interessa por um tema, fica superfocada: hoje, o cantor Michael Bublé. Biografia, gravações, durações exatas das músicas, datas de shows passados e futuros são seu tema central de conversa — em qualquer lugar. Insiste em ouvir canções de Natal fora de época. Não admite contradição, o que gera atritos e isolamento entre os colegas. Seu desenvolvimento é adequado; algo, porém, "não fecha".

O que esse perfil mostra Cognição preservada, interesse intenso de conteúdo socialmente aceitável, rigidez que passa por "personalidade". Os sinais estavam todos lá — lidos por anos como dotes ou peculiaridades. É o caminho que quase escapa: o fenótipo feminino em estado puro.

Uma pergunta para levar daqui

Quantas "Elisas" foram, ao longo dos anos, admiradas por exatamente aquilo que merecia ser compreendido?

Fontes

Referências

Este guia é uma adaptação clínica e educativa, em linguagem própria, fundamentada nos estudos abaixo.

  1. Siracusano M, Mazzone L. Autism Spectrum Disorder: Prevalence and Symptoms' Onset. In: Mazzone L, et al. (eds.). Springer; 2024.
  2. Siracusano M, Marcovecchio C, Carloni E, Riccioni A, Mazzone L. Female Autism Phenotype. In: Mazzone L, et al. (eds.). Springer; 2024.
  3. Siracusano M, Arturi L, Riccioni A, Mazzone L. Cognition and Neuropsychological Profiles. In: Mazzone L, et al. (eds.). Springer; 2024.
  4. Keller R, Leone D, Aresi A, Salerno L, Carloni E, Siracusano M, Mazzone L. Adulthood: Do the Sex/Gender Differences in Autistic Phenotype Persist in Adult Life? In: Mazzone L, et al. (eds.). Springer; 2024.
  5. Jack A, McQuaid GA, Gupta AR. Neurogenetics of Autism Spectrum Conditions in Individuals Assigned Female at Birth. In: Mazzone L, et al. (eds.). Springer; 2024.
  6. Davico C, Secci I, Vitiello B. Internalizing Disorders and Female Autism. In: Mazzone L, et al. (eds.). Springer; 2024.
  7. Davico C, Lux C, Vitiello B. Female Autism and Externalizing Disorders. In: Mazzone L, et al. (eds.). Springer; 2024.
  8. Riccioni A, Siracusano M, Mazzone L. Clinical Case Reports. In: Mazzone L, et al. (eds.). Springer; 2024.
  9. Robinson EB, Lichtenstein P, Anckarsäter H, Happé F, Ronald A. Examining and interpreting the female protective effect against autistic behavior. Proc Natl Acad Sci USA. 2013;110(13):5258–62.
  10. Dworzynski K, Ronald A, Bolton P, Happé F. How different are girls and boys above and below the diagnostic threshold for autism spectrum disorders? J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2012;51(8):788–97.
  11. Lai MC, Lombardo MV, Auyeung B, Chakrabarti B, Baron-Cohen S. Sex/gender differences and autism: setting the scene for future research. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2015;54(1):11–24.
  12. Tubío-Fungueiriño M, Cruz S, Sampaio A, Carracedo A, Fernández-Prieto M. Social camouflaging in females with autism spectrum disorder: a systematic review. J Autism Dev Disord. 2021;51(7):2190–9.
  13. Cook J, Hull L, Crane L, Mandy W. Camouflaging in autism: a systematic review. Clin Psychol Rev. 2021;89:102080.
  14. Hull L, Petrides KV, Allison C, Smith P, Baron-Cohen S, Lai MC, Mandy W. "Putting on my best normal": social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. J Autism Dev Disord. 2017;47(8):2519–34.
  15. Allely C. Exploring the female autism phenotype of repetitive behaviours and restricted interests (RBRIs): a systematic PRISMA review. Adv Autism. 2019;5(3):171–86.
  16. Hollocks MJ, Lerh JW, Magiati I, Meiser-Stedman R, Brugha TS. Anxiety and depression in adults with autism spectrum disorder: a systematic review and meta-analysis. Psychol Med. 2019;49(4):559–72.
  17. Hirvikoski T, Mittendorfer-Rutz E, Boman M, Larsson H, Lichtenstein P, Bölte S. Premature mortality in autism spectrum disorder. Br J Psychiatry. 2016;208(3):232–8.
  18. Cassidy S, Bradley L, Shaw R, Baron-Cohen S. Risk markers for suicidality in autistic adults. Mol Autism. 2018;9:42.
  19. Baron-Cohen S. The extreme male brain theory of autism. Trends Cogn Sci. 2002;6(6):248–54.
  20. Happé F, Frith U. Annual research review: looking back to look forward — changes in the concept of autism and implications for future research. J Child Psychol Psychiatry. 2020;61(3):218–32.
  21. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.). 2022.